RITO

''PASSOS PARA QUEM PARTIU...''

Vamos fazer um Rito... Vamos caminhar em silêncio durante três dias (de 30 de julho a 01 de agosto) da sede em construção do Teatro Contadores de Mentira na cidade de Suzano até a nascente do Rio Tietê, no município de Salesópolis. Percorreremos 4 cidades até o destino final. Serão mais de 600 mil passos dados pelos integrantes do grupo Contadores de Mentira. É uma ação simbólica em memória ao triste número de mortos por COVID no Brasil. 
Durante o caminho, pensado de forma dramatúrgica, encontraremos os encantados, os seres que nos protegem e aqueles seres que nos dão força para seguir. Artistas farão performances e ações enquanto o grupo Contadores de Mentira seguirá o caminho longo deixando pequenas cruzes de Beira de Estrada como um ato simbólico para a memória dos mortos. 
A ação faz parte do Festival E(s/x)tirpe – encontro para Celebração e Rito, realizado a cada dois anos pelo grupo Contadores de Mentira. O Festival que traz os temas: “Corpo Ausente”, “Preservação dos Sentidos” e “Ode aos Profanos”, conta com a participação de grupos e artistas de diversos países: Espanha, Dinamarca, Colômbia, Cuba, Paraguai, Argentina, Equador, Peru, Porto Rico, México, Brasil e Moçambique.


E por que faremos este Rito?


Não é possível contar os mortos, nem mesmo nossos braços são grandes o bastante para acolher o sofrimento de tanta gente que viu seus amigos, seus familiares irem embora de maneira abrupta durante os tempos pandêmicos que assolam o planeta. E claro, nos dói e nos deixa profundamente indignados pensar que dois terços destas pessoas poderiam estar vivas não fosse o caos e o medo gerado pelas pelas políticas públicas do governo federal que deveria, entre outras tantas coisas, garantir a nossa proteção. Por idealismos, radicalismos e opressão fomos tratados como rebanho pronto para o abate. Cabe aos governantes cuidar de seu povo, cabe a eles o cuidado de não massificar o medo, cabe a estes políticos acalmar a população e não gerar o pânico e o desespero em nome de um falso progresso. Não bastasse o número de mortos vimos e ainda continua a irresponsabilidade histórica ramificada em ações corruptas que não deixaram chegar até o Brasil as vacinas que teriam salvo a vida de tanta gente...
Esses números estão em todos os meios de comunicação ramificados e discutidos amplamente pela sociedade e ainda assim são números que não abrangem os invisíveis sociais e os muitos mortos não contabilizados oficialmente...
E o que um grupo de teatro como o nosso pode fazer no meio de tanto horror? Como uma microcultura como a nossa consegue sobreviver à barbárie? É papel de um grupo como o nosso estar enraizado nas lutas contra a opressão e contra um modelo de sociedade que pensa em coisas e não em pessoas. Nossa função é um contra fluxo para que seres humanos possam ter dignidade, liberdade e direitos preservados.
Nos sensibilizamos e sentimos a mesma dor que o nosso povo e por isso em tudo o que fazemos e que fizemos durante a pandemia, mesmo de forma online nos exigiram fazer escolhas, não apenas de sobrevivência de nosso coletivo, mas também pensando na sobrevivência de uma rede de fazedores. Fizemos escolhas de produzir algo que elevasse a estima ou minimamente pudesse trazer algum alento a quem está sofrendo. Nossas escolhas também tentam combater a violência perpetrada por uma legião de “cidadãos de bem” que estão fortalecendo a destruição de nossa própria cultura brasileira e do ambiente à nossa volta.


Portanto pensamos em memória... Preservar os sentidos e preservar vidas... 


Não temos a força de grandes poderes, mas temos a convicção firme de que estamos de mãos dadas a muita gente... E algumas delas já não estão na terra... se foram...
Portanto... caminhamos para elas... Para não esquecermos...